Juros caindo, mas crédito caro
Entenda por que você continua pagando mais
Você tem a sensação de ver juros caindo, mas crédito caro?
As taxas bancárias continuam elevadas no Brasil, mesmo com a redução da Selic no mês passado.
Por este motivo, o crédito continua caro.
O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou cortes na taxa Selic, o governo celebra a queda dos juros, mas o crédito continua caro.
Para ver isso acontecer, na prática, basta entrar no app do banco para simular um empréstimo e levar um susto.
Ou, então, conferir a fatura do cartão de crédito, se você entrar por poucos dias no rotativo, já vai poder sentir na pele quanto o crédito é caro no Brasil.
Em outras palavras, os juros reais continuam nas alturas. Sendo assim, vem conferir porque isso está acontecendo.
Juros caindo, mas crédito caro
Se você se pergunta por que o seu boleto não diminuiu os juros em caso de atraso, a questão é que a queda da Selic foi pequena.
Não aconteceram muitas mudanças no cenário do crédito, porque o “spread” bancário não “está deixando”.
Então, para entender por que você paga caro, bora entender o que é o spread bancário?
Em termos simples, o spread é a diferença entre o que o banco paga para captar dinheiro (taxa de captação) e o que ele cobra para emprestar o mesmo dinheiro.
Ou seja, é a taxa de empréstimo.
Então, bora ver o que compõe o custo do dinheiro?
Os componentes do custo do dinheiro
Muitos acreditam que o spread é apenas o lucro do banco, mas não é.
Então, antes da gente te explicar, na prática, saiba que mesmo que a Selic caia 1% ou 2%, nada mudará se a inadimplência subir.
Desse modo, a Selic funciona apenas como o “preço da matéria-prima”.
A realidade é mais complexa, então, vem entender do que o spread é composto:
Custo de Captação: Influenciado diretamente pela Selic.
Inadimplência: O custo dos clientes que não pagam suas dívidas.
Despesas Administrativas: Salários, tecnologia e infraestrutura bancária.
Impostos e Encargos: Tributos diretos sobre operações financeiras (como o IOF).
Margem de Lucro: O retorno esperado pela instituição financeira.
A inadimplência e o crédito caro
O maior vilão do crédito caro no Brasil continua sendo a inadimplência. Quando uma parcela da população deixa de pagar seus empréstimos, os bancos repassam esse custo para todos os demais, sejam bons pagadores ou não.
Embora a economia esteja mostrando sinais de recuperação, o endividamento das famílias ainda é recorde.
Quando o banco percebe que o risco de não receber o dinheiro de volta é alto, ele aumenta o “prêmio de risco”.
Então, se você possui um bom histórico financeiro, acaba pagando uma taxa maior para cobrir o prejuízo causado por quem dá calote.
Dessa forma, o crédito no Brasil funciona como um seguro.
Ou seja, quanto mais gente bate o carro (deixa de pagar), mais cara fica a apólice (juros) para todos.
Sendo assim, dívidas como o cheque especial e o rotativo possuem juros estratosféricos.
E isso ocorre porque não há garantias de pagamento por parte dos clientes.
Por esse motivo, o spread é imenso, por conta do risco.
A concentração bancária e o crédito caro
Outro fator para que você continue pagando mais é a estrutura do sistema financeiro.
Apesar do crescimento das fintechs, o Brasil ainda possui uma das maiores concentrações bancárias do mundo.
Atualmente, cinco grandes instituições controlam a vasta maioria dos depósitos.
E também controlam grande parte das operações de crédito.
Dessa forma, essa concentração reduz o incentivo para que os bancos baixem os juros para buscar novos clientes.
Logo, se a concorrência é baixa, o “preço” do empréstimo tende a ficar mais caro.
Nesse sentido, existe a portabilidade de suas dívidas – que pode ser uma saída quando não há concorrência entre os bancos.
Mas, a burocracia e a falta de educação financeira ainda impedem que essa competição aconteça de verdade.
O impacto da inflação e o crédito caro
Você pode se perguntar: “Se a inflação está controlada e a Selic caiu, por que o banco ainda desconfia?”.
Então, a resposta reside na percepção do cenário fiscal e na inflação futura projetada.
Os bancos não emprestam dinheiro baseados apenas na Selic de hoje, mas na previsão de juros mais no longo prazo.
Se o mercado percebe que as contas públicas do governo estão desequilibradas, a incerteza segura os juros lá em cima.
Ou seja, o mercado entende que o Banco Central terá que subir os juros e, com isso, as coisas complicam quando o assunto é crédito.
Desse modo, o consumidor continua pagando mais porque as instituições estão “se protegendo” de um futuro incerto.
Por outro lado, o Brasil possui um sistema jurídico que é lento.
Ou seja, o sistema torna a recuperação de garantias lenta e cara.
Então, se um banco demora cinco anos para retomar um imóvel de um devedor, o custo disso tudo acaba por cair sobre os juros.
E esse é só um exemplo de como as coisas funcionam no Brasil.