O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acaba de entrar para o mercado financeiro. A improvável associação foi anunciada na semana passada, pelo líder do movimento, João Pedro Stedile. A organização lançou um fundo de investimentos, batizado de Finapop (Financiamento Popular), gerenciado em parceria entre cooperativas do MST e uma corretora de investimentos.

“Ele (o investidor) vai receber de retorno cerca de 4 a 5% e a agência vai repassar esse dinheiro na forma de empréstimo a uma taxa de juros também de 4 a 5 %. De maneira que quem empresta o dinheiro vai receber mais do que se aplicar na poupança e as cooperativas terão um mecanismo mais desburocratizado e flexível”, afirmou João Pedro Stedile, da coordenação nacional do movimento, ao site oficial do MST.

O Finapop foi registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O fundo oferece um retorno pré-fixado de 5,5% ao ano. O objetivo dos recursos captados é de utilizá-los para financiar a agricultura familiar e a produção de alimentos orgânicos.

A captação de tais recursos se dará por meio da emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA). Na primeira rodada, o movimento já conseguiu levantar um milhão de reais, que serão destinados à Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), no Rio Grande do Sul. A Coopan é conhecida por ser a maior produtora de arroz orgânico da América Latina e também conta com criação própria e abatedouro, com produção de carne suína e leite, segundo o MST.

Como funcionava antes

Antes do Finapop, as cooperativas tinham acesso somente ao empréstimo da Pronaf Agroindústria, que possui taxas de juros em torno de 6% ao ano. Com esse modelo, o repasse do dinheiro será feito por meio de um empréstimo. Os juros cobrados, de 5,5% ao ano, são os mesmos oferecidos ao investidor, acrescidos de uma taxa de intermediação.

O economista Eduardo Moreira, que possui grande experiência no ramo, visto que atuou por 20 anos no mercado financeiro e, hoje em dia, oferece cursos financeiros na internet, ajudou a desenvolver o programa. “É uma maneira de financiar o mundo que a gente acredita”, afirma Moreira, que, além de trabalhar na elaboração do Finapop, é um dos investidores iniciais.

Inspiração vinda da Europa

A ideia foi baseada na experiência do Triodos Bank, instituição financeira criada na Holanda, na década de 1980, que se classifica como um “banco ético”, voltado ao financiamento sustentável de projetos que promovam a qualidade de vida e a dignidade humana.

Segundo Stedile, o fundo vai ajudar a aumentar a produtividade das cooperativas ligadas ao MST. Há planos, inclusive, de construir uma fábrica de vidros, também na região Sul, para atender a demanda por recipientes para os produtos orgânicos do movimento.

Mudança de foco

Desde o ano passado, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tem deixado as invasões de terra em segundo plano, para se concentrar na produção. A prioridade tem sido vender alimentos diretamente ao consumidor, por meio das “feiras da reforma agrária”, que já ocorrem em 15 cidades do País, e o grupo deseja ampliar ainda mais.

As invasões vinham diminuindo desde o governo de Dilma Rousseff e, praticamente cessaram, com a posse de Jair Bolsonaro. O presidente já ameaçou classificar o MST como organização terrorista. O sucesso nos negócios também exerceu forte influência na decisão de reduzir os protestos mais incisivos.

Algumas cooperativas ligadas ao movimento já apresentam faturamento relevante, como a Cooperoeste, de Santa Catarina, cuja receita anual ultrapassa os 200 milhões de reais. Ao todo, o MST concentra cem cooperativas, 96 agroindústrias, 1.900 associações e 350 mil famílias assentadas em cerca de 88 mil hectares de terra.

Cooperativismo no campo gera renda para pequenos agricultores

A partir da produção de uma alimentação saudável e da autogestão, pequenos agricultores mostram que o campo também é terreno fértil para o cooperativismo. Relembrada neste 6 de julho, data que marca o Dia Internacional do Cooperativismo, tal forma de organização se consolida como meio de subsistência para a população camponesa.

É o caso, por exemplo, de dezenas de famílias do Assentamento Contestado, localizado no município da Lapa, a 60 km de Curitiba (PR). Para comercializar hortaliças, frutas e verduras produzidas semanalmente pelos assentados, em 2010 foi criada a Cooperativa Terra Livre, que somente no ano passado vendeu 270 toneladas de alimentos.