O ciclo financeiro invisível das empresas brasileiras
É preciso equilibrar os prazos, o recebimento e o pagamento
Há um ciclo financeiro invisível das empresas brasileiras.
Essas engrenagens ocultas, que sustentam a saúde das empresas, merecem atenção, do contrário, a asfixia financeira pode atrapalhar o dia a dia.
A gente sabe que muitas empresas encerram o mês com o faturamento em alta, mas a conta bancária no vermelho.
É um paradoxo e o resultado disso é o ciclo financeiro invisível.
Ou seja, embora o lucro apareça no papel, a realidade operacional é bem diferente.
A grande questão é que neste ano, com o cenário econômico exigindo maior eficiência, é preciso dar uma atenção extra a esse assunto.
Ainda mais que as taxas de juros estão assustando, inclusive, a Selic está em 15%.
Dessa forma, de nada adianta manter o foco nas vendas e esquecer de observar as lacunas que drenam o dinheiro e a liquidez.
O ciclo financeiro invisível
O ciclo financeiro invisível é o que determina quem prospera e quem fecha as portas.
Não é segredo para ninguém que boa parte das empresas que abrem seu CNPJ no país, acabam fechando dentro de um ano.
Por este motivo, é importante conferir sempre não só as vendas, não só o lucro, mas o fluxo de caixa, que é o que garante a sobrevivência.
Sendo assim, é preciso equilibrar os prazos, o recebimento e o pagamento, para retomar o controle financeiro da sua empresa.
Então, bora ver as engrenagens que compõem o ciclo financeiro do seu negócio, para que o capital de giro trabalhe a seu favor.
O que é o ciclo financeiro invisível
Precisamos diferenciar o que vemos do que realmente acontece. Então, o que é o ciclo financeiro invisível?
Vamos lá: o faturamento é visível, certo?
Contudo, o ciclo financeiro é o período que ocorre entre o pagamento aos fornecedores e o recebimento das vendas feitas.
Dessa forma, ele é invisível porque não aparece nos relatórios de vendas imediatas.
Em outras palavras, quando uma empresa compra os produtos ou a matéria-prima, ela inicia seu ciclo.
Mas, se o fornecedor exige pagamento em 30 dias e o cliente final paga em 60, existe um buraco de 30 dias.
E, de onde a empresa vai tirar o dinheiro?
Ou seja, esse intervalo é o que chamamos de ciclo financeiro, que, com a cultura do parcelamento no país, é um problemão para as empresas sem capital de giro.
As três engrenagens importantes do ciclo financeiro
Para entender e dominar esse ciclo, você deve estudar o assunto.
Por este motivo, é preciso entender as três variáveis fundamentais desse ciclo.
A boa notícia é que cada uma delas oferece uma oportunidade de ajuste.
1- Prazo médio de estocagem
Esse ciclo refere-se ao tempo que os produtos ficam parados na prateleira ou no estoque.
Como você sabe, dinheiro em estoque é dinheiro parado – e que custa caro.
Então, quanto mais rápido o produto gira, mais rápido você chega perto de receber por ele.
2- Prazo médio de recebimento
Essa segunda engrenagem é que trava o processo.
Ou seja, é o tempo médio que os clientes levam para pagar pelas compras.
Então, se a sua empresa tiver parcelamentos longos, o fluxo de caixa cai e a engrenagem emperra. Lembre também que há dinheiro parado no estoque!
3- Prazo médio de pagamento
Este é o tempo que você leva para pagar seus fornecedores.
A lógica é simples: quanto mais você estica esse prazo, mais fluxo de caixa você terá, pois o dinheiro fica com você.
Mas, o contrário é perigosíssimo, pois é preciso lembrar que tem produto no estoque (dinheiro parado) e prazo de pagamento do cliente longo, então, se você tiver que pagar o fornecedor antes do cliente pagar pelo produto, a conta não vai fechar.
Venda a qualquer custo x ciclo financeiro invisível
Outro grande problema é que, na ânsia de bater metas, muitas empresas facilitam – demais – as condições de pagamento.
Quantas grandes empresas quebraram no Brasil por conta do crediário? Aí no seu bairro, por exemplo, certamente você vai lembrar de muitas.
E o problema não foi só a inadimplência, mas, sim, a demora no ciclo do dinheiro, pois você precisa pagar o fornecedor e esse dinheiro precisa vir da venda do produto.
Ou seja, um parcelamento longo é um veneno que mata a empresa.
Se você vender em 12 vezes – com ou sem juros – e não ter uma reserva de capital de giro para pagar o fornecedor, aí temos um problema.
Então, como uma das saídas da empresa é antecipar recebíveis de cartões e outros tipos de crédito, o dinheiro entra rápido no caixa e sai mais rápido ainda – e pagando juros.
No final das contas, você está vendendo muito, mas o lucro está ficando com o banco e com as operadoras de cartão.
Veja estratégias para encurtar o ciclo financeiro da empresa
Então, agora que estudamos onde o dinheiro fica preso, do estoque à demora do cliente em pagar – que tal avançar para outra questão importante?
E não há nada mais importante para o fôlego do caixa do que liberar o dinheiro preso.
Sendo assim, é importante agir para mudar o cenário, inclusive, fazendo uma renegociação com fornecedores e mudando prazos de venda dos produtos.
Dessa forma, não aceite os prazos que fornecedores querem te dar, tente alinhar o pagamento com a data que você recebe dos clientes.
Essa parte é muito importante e não pode ficar desalinhada, pois muitas empresas quebram não por falta de vendas, mas por falta de fluxo de caixa.
Outra boa alternativa é antecipar o prazo para o cliente. E uma opção é dar descontos reais para pagamentos à vista.
Muitas vezes, dar 5% de desconto no Pix é mais barato do que pagar as taxas de cartão e esperar 30 dias para receber. Não acha?
Dicas finais sobre o ciclo financeiro invisível
Então, por fim, saiba que entender o ciclo financeiro invisível exige muito.
Mas, saiba que o brasileiro ama parcelar, então, negar o parcelamento pode significar perder o cliente para a concorrência.
Sendo assim, o desafio não é proibir o parcelamento, mas fazer o dinheiro girar de forma mais rápida.
Então, por exemplo, se o seu ciclo financeiro vai durar 90 dias por conta da venda parcelada, este custo precisa estar no preço.
Ou, então, o seu fornecedor também precisa respeitar este ciclo, onde você vai pagar em 90 dias pela compra.
Sendo assim, a grande lição nestes tempos difíceis de concorrência e de juros altos é que a sua empresa não pague para trabalhar.