A empresa americana de biotecnologia Moderna anunciou, nesta segunda (18), ter obtido resultados “positivos preliminares” na fase inicial de ensaios clínicos de sua vacina contra o novo coronavírus. Os testes foram feitos em um pequeno número de voluntários. Segundo a empresa, a vacina produziu resposta imune em oito pacientes que a receberam, afirmou a agência de notícias France Presse.

Pelos últimos dados, atualmente são desenvolvidas 118 vacinas contra o coronavírus, de acordo com um balanço divulgado na última semana, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Entre elas, 8 estão em fase clínica (incluindo a da empresa Moderna), e 110 em fase pré-clínica.

“A fase provisória 1, embora em estágio inicial, demonstra que a vacinação com o RNA-1273 produz uma resposta imune da mesma magnitude que a provocada por infecção natural”, disse Tal Zaks, diretor médico da Moderna, em comunicado. Isso sugere que, embora não seja a prova final, a vacina desencadeia uma resposta imune. Para a empresa, a vacina “tem potencial para prevenir o Covid-19”.

O estudo clínico é realizado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, onde o governo investiu 500 milhões de dólares para essa potencial vacina. Durante os testes, os pacientes receberam três doses diferentes da vacina. A fase 3, testando mais pessoas, começará em julho, detalhou a empresa Moderna.

A vacinação contra o coronavírus é uma prioridade global para acabar com a pandemia que já deixou mais de 315.270 mortes em todo o mundo e pelo menos 4,7 milhões de casos confirmados.

Na semana passada, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse esperar ter uma vacina contra o coronavírus até o final do ano.

Como funciona a produção de vacinas?

Para chegar a uma vacina efetiva, os pesquisadores precisam percorrer diversas etapas. Entre elas está a pesquisa básica, que é o levantamento do tipo de vacina que pode ser feita. Depois, passam para os testes pré-clínicos, que podem ser in vitro ou em animais, para demonstrar a segurança do produto. Na sequência, avança para os ensaios clínicos, que podem se desdobrar em outras quatro fases, que são:

  • Fase 1: é realizada em seres humanos, para verificar a segurança da vacina nestes organismos;
  • Fase 2: é quando se estabelece qual a resposta imunológica do organismo, a chamada imunogenicidade;
  • Fase 3: passa para a última fase de estudo, para obter o registro sanitário;
  • Fase 4: por fim, ocorre a distribuição para a população.

Vacina contra Covid-19 só chegará na segunda metade de 2021

O diretor do Laboratório de Imunologia do Incor (Instituto do Coração), Jorge Kalil, afirmou, em entrevista à Rádio Jovem Pan, nesta terça (19), que a vacina contra o novo coronavírus não deve chegar antes da segunda metade do ano que vem.

O especialista explicou que, apesar da euforia causada pelo anúncio da farmacêutica Moderna sobre o bom resultado do teste de uma vacina contra a Covid-19 em humanos, isso não significa que os estudos serão concluídos em breve. “Não acredito que ela vá terminar esses estudos antes da metade do ano que vem, por mais que queiram terminar na semana que vem”, disse Kalil.

O médico lembrou que a vacina desenvolvida pela empresa usa o RNA do vírus e seria pioneira no mercado. Por isso, a fabricação das doses seria diferente. “Eu imagino que a Moderna já esteja construindo uma fábrica para essa vacina, porque não existe nenhuma fábrica de vacina de RNA mensageiro no mundo”, afirmou Kalil.

O médico ainda ressaltou que a vacina precisa ser aprovada pelas agências reguladoras. Isso ainda deve demorar um tempo, apesar das agências terem adotado protocolos que agilizem esses processos. “Por causa da necessidade mundial, as agências regulatórias fizeram fast-track, mas não com menos cuidado. Tem ainda mais cuidado”, alerta o profissional. “Sem dúvidas, desta vez, estão sendo exigidos menos experimentos até chegar em humanos. Mas temos que trabalhar com consciência”.

Apesar da euforia em torno do anúncio da Moderna, Jorge Kalil reforçou que é preciso cautela, uma vez que as únicas informações sobre o experimento são da própria empresa. “Não temos dados científicos publicados para que a gente saiba realmente o que está acontecendo”, lembrou o médico.